Foi o jeito que ela entrou no lugar dele que acabou com tudo.  A beleza é realmente impossível de explicar. Mas ninguém ousaria dizer que ela era feia. E pior do que ser bem claro que ela era bonita, era o fato de ficar ainda mais fácil de ver que ela sabia muito bem disso. Usava a beleza com a mesma destreza de um músico velho. Ali, na primeira vez que a viu, ele começou a entrar sem se dar conta noutro  lugar do mundo. Um lugar cheio de palavras vazias e carregadas de paixão. Já na sala de espera, logo quando ela entrou, ele perseguiu seu tom de voz de longe. Via-a caminhando até à mesa da recepção e voltando até sumir atrás de um cartaz de campanha, colado no vidro da sua sala.  Atendeu às outras três candidatas com todo azedume que sua superioridade permitia. Para ele, elas, com todos os seus obrigados e outros tantos gestos doces, vistos de um lugar onde nada disso importa, não passavam de números em uma ordem decrescente, demorando muito a passar. Ele, graças a esses tantos bloqueios que um homem tem, não se dava conta, mas não via a hora dela entrar. E ela entrou. Ninguém explica a beleza, mas ela pára o tempo quando acontece. Quando uma mulher sua encontra em sua hora completa, com todas as cores e texturas em seus lugares certos, tudo em sua volta sai do lugar. E foi isso que ele sentiu. Sem saber, é claro. Já numa certa idade, qualquer bloqueio de um homem pode esconder até que ele é um homem. Agora o tempo avançava e ela já encontrava colada em sua mesa. Ao levar algumas folhas com suas referências até ele, seu rosto avançou de um jeito tão forte que ele se empurrou para trás. Aquilo para ela passou como um gesto simples. Para ele foi um susto perfeito. Uma coisa impossível de controlar. E completamente, mas não visivelmente, descontrolado, ele pegou todas aquelas folhas e se escondeu atrás delas. Não foi só a beleza dela que lhe deu a certeza de que o emprego não seria de mais ninguém, mas o jeito como ela sabia usar tanto o próprio corpo. Como ficava claro o carinho que a criou. Como esse carinho era ao mesmo tempo vaidade e uma aposta violenta em si mesma. Como tudo isso estava tão bem posto a ele. Em sua posição de gerente e suas tantas armadilhas para manter preso tudo o que lhe seria útil. Embora utilidade não era bem o que ele buscava nela. Certa vez, numa dessas rodas entediantes, onde se discutem coisas bestas como filmes, música, ele ouviu dizer que a beleza de alguma coisa era tão útil quanto o gol de não sei quem, que era uma coisa que só pela alegria que ela causava já bastava sua existência. Era essa alegria. Mesmo ele não se deixando ver, era isso. Fez meia dúzia de perguntas formais e lhe deu o cargo que, na visão dele, uma máquina faria muito melhor. Mas pelas regras da empresa…

Juliano Gauche

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8 Comentários on “”

  1. Gabi disse:

    suspiros……
    nem sabia que tava com tanta saudade dos escritos desse rapaz….

  2. Lori disse:

    Fez valer a pena a sexta-feira,o fim de semana,a beleza desse conto.Valeu Juliano!

  3. Lipe disse:

    Acabei de ver a chamada pro Omelete Marginal na TV Gazeta. Parabéns, ficou linda rs. Bjo.

  4. George Saraiva disse:

    Não sei Gauche, mas ainda sinto falta de uma certa personalidade, o texto tem estilo e é bom, redondinho e tal, mas falta algo que vc consegue imprimir principalmente em seus poema-prosas, não sei… só sinto falta de algo ou parece que tudo está no lugar, porém, literatura tem disso né não, suficientemente prosáico, ainda que em poucas tonalidades, vou ler o resto. abração.

  5. George Saraiva disse:

    O capitulo seguinte começa me surpreendendo. Espero com uma certa expectativa, dá pra ver a pena a serviço do exercicio. Veremos, pq conto é foda, mais dificil do que um romance inteiro.

  6. CUT CLUB disse:

    […] .capítulo I. […]


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