.capítulo I.

.

.capítulo II.

Ele nunca saberia que ela também sabia disso. Nunca saberia que ela só estava passando por ali, como quem passa por uma cidadezinha e tem que se hospedar, até que o carro fique pronto. E se hospedar era tudo que ela queria. Como boa parasita que sempre foi, só queria outro corpo onde pudesse comer. E para isso tinha tudo o que precisava: beleza.

A mesma beleza que lhe privou de todos os entraves pelo caminho. Que sempre lhe deu os melhores lugares. Desde menina. Essa beleza que cega e depois mastiga devagar. Não a beleza que simplesmente deixa as coisas mais leves, mas uma beleza enxadrista. Que se molda a favor das coisas que lhe faz sentir, em todos os dias de sua vida, a qualquer preço, o mundo dobrado aos seus anseios. Uma beleza que enlouquecia qualquer sexo. Mas sexo mesmo ela nem gostava tanto. O sexo em si, a coisa dos corpos no contato constante, dos urros e outras pequenas violências, ela não gostava. Gostava mesmo era da putaria pequena. De mãos estranhas entre suas pernas nos clubes escuros. De gozar no travesseiro antes de dormir. De se esfregar nos primos. Quando via que não escaparia mais uma noite assim, bebia muito e se entregava a qualquer coisa.  E essa coisa qualquer, num tempo não muito curto, seria ele.  Uma mulher sabe, assim que encontra um homem, pelo modo como ele a olha, que ele sempre estará preso aos seus gestos. E faz disso um brinquedo novo. Antes que ele dissesse, venha na próxima segunda, ou qualquer coisa assim, ela o olhou com malícia e perguntou: então, quando começo¿ E ele fingindo ser duro e dono de si mesmo, esboçou umas consideções e disse: venha na próxima segunda e verei o que posso fazer.

Depois que ela saiu da sala, ele ficou fitando o ar e se permitiu uns sonhos bestas. Imaginava ela ali todos os dias, pairando ao seu redor, fazendo de tudo para agradá-lo e ele fingindo insatisfação. Até que um dia, querendo estar mais próxima, ela incitasse um pouco mais de intimidade e perguntasse a ele bobeiras sobre sua vida pessoal. Coisa que ele saberia transformar em uma conversa leve e depois atraí-la a um drinque pós expediente, ali mesmo na sala dele. Então tudo aconteceria naturalmente: uns risos altos, a mão dela batendo forte em sua perna, ele pedindo para tirar um cisquinho perto do olho dela, a perplexa troca de olhares, um beijo atrapalhado, depois outro firme… Então suas fantasias cresciam e ela se tornava todas as mulheres numa só. Saltando em seu colo e se apertando com força para sentir o volume crescendo. Pegando-o pela nuca e lhe trazendo para os seios, impedindo que ele lhe rasgasse a roupa, que lhe mordesse e coisas assim. E com a mão já quase suando ela abriria seu zíper e traria para fora o membro latejante. Ele tentaria puxar sua calcinha para o lado, mas ela não deixaria. Jogaria o corpo para trás e se deitaria no chão abrindo e fechando as pernas até que ele saltasse em cima dela.  Seus pensamentos foram interrompidos por alguém batendo à porta. E já na esquina ela ia pensando: Coitado, tá na minha mão! Aposto que já está louco para me comer. Coitado.

Juliano Gauche


9 Comentários on “”

  1. judadalto disse:

    texto fantasticamente difícil de suportar. Amo a força dele. Capítulo 2 do conto que não tem data pra terminar, notícia confidencial vinda direto do autor. Em homenagem ao casório dele que foi sábado. Amanhã, também com fotos, no CUTClass. Valeu Ju.

  2. Lori disse:

    E que força!Estava curiosíssima,Juliano de forma graciosa soube narrar um momento de sedução.Leitura obrigatória para salvar uma segunda-feira monótoma.

  3. Gabi disse:

    ainda bem que nem tem data p acabar.
    já não saberia viver sem as palavras do gauche….
    lindo e excitante!
    assim como o casal!
    bjbj
    ju e ju
    e sil
    hehe

  4. Thaís disse:

    Ju,
    O primeiro cap. foi publicado no cut? (Acho que vou ter que dar umas voltinhas nos arquivos)

    bj

  5. Roberta Calazans disse:

    Jú,
    temos que marcar uma horinha no café pra tomar um capuccino com canela e falar daquela história das camisetas…
    o que acha?
    veja o melhor dia pra ti.
    blog muiiiiiiiiiito legal!
    adorei a entrevista com a Cris Guerra.


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