Dois pequenos dramas barrocos

Da falta

I. Quando dei por mim havia esse anjo nada torto, era contrito e de falsa esquerda. Pagava mensalidades às mentiras e chamava-se: Desamor.

Acabou com minhas pernas, elas pesavam itinerários que não traçavam nas noites, nem nas tardes nem em quaisquer dias. Alargava-me na cintura, era minha boca em forma de não, os vincos na testa onde pensamentos lúgubres se escondiam. E mulher que anda em companhia deste anjo, vira motivo de chacota. Que o mundo ainda tem a pachorra de fazer ganir cachorro quase moribundo.  Eu gemo: de tristeza. Ouço Paloma Negra e penso por que não eu? Por que não eu? Brigo com Eros mesmo sabendo que ele deixou de existir há tempos. Mas antes me mandou esse anjo de cor morena, tez adocicada como sua voz, não suporta barulhos, fala baixo, se esconde denso entre minhas roupas, parece estar pregado no espelho em que me olho antes da festa, por isso menos festa, menos rua, menos alegria. O anjo nada torto o tempo todo é o único que não me troca pelas novas moças dos sabonetes Araxá. Fiel o Desamor, te deixa o bastante para esperar o próximo Dia dos Namorados, quando ele volta a te esfregar na cara os sorrisos dos casais deitados nas gramas dos parques.
E ainda te sacaneia, atirando a seus pés rapazes: tolos, casados, parvos, desonestos, que suam nas mãos, que dançam engraçado demais. Desamor esconde todos os homens que prestam, na casa, no quarto e nas escrituras em posse das outras damas, essas que nasceram com a sorte do acalanto na voz, com a sabedoria de serem meigas, magras e melhores.

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Do excesso

II. Da próxima vez que ouvir qualquer ser, falar que tal dama é triste por falta de homem (e nessas horas os malfadados proferem logo o nome do órgão por extenso, quase com divisão silábica, pena que é geralmente a palavra monossílaba que usam) da próxima vez eu lembrarei de algumas possibilidades que podem ser causadas pelo excesso de homem. Mesmo que seja o de um só. Essa coisa que pode ser reticente e jogada no sofá da sala, que pode ser apreensão, somente por isso. Ou da coisa que é um telefone que não liga, nunca. Ou somente toca quando já é tarde demais para que até lembremos de seu nome por extenso.

E os pescoços de alguns homens? Devem ser os mecanismos com maior mobilidade na Terra, elásticos ao olhar para o lado. E os ciúmes deles a respeito de suas mulheres, exigem-se desse ciúme uma medida tênue, que em excesso atormenta e quando não existe preocupa.

E para piorar tudo são os que nos vêm com camisetas largas e calcinhas de algodão frouxo, e nem sempre somos Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, linda de camisa de homem branca. Tudo bem, eles nem sempre são George Peppard. Tudo bem? Não, nada disso. Mesmo exibindo suave (eu não tenho nada contra, juro) pancinha falam em academia com toda cientificidade para suas peguetes, namoradas e esposas, gratas por algum tempo entre o trabalho e o jantar.

Acham que ser bem-sucedido é o que nós queremos em demasia. Ou desejam ser amásios. Eu espero sorridente o meio termo. E tantos têm a virtude da falta de assunto, da falta da cantada certa. Coisa que deveria ser mole_ a palavra, é dura. Coisa que deveria ser dura_ é mole.

Portanto quando perceberem naquela chefa, taxista, diretora da escola, dona do bar, policial, advogada e outras mais em quaisquer cargos, mesmo que donas de casa (ó que vida difícil), quando por acaso nelas existir esse detalhe que há milênios apavora a humanidade, o mau humor feminino, podem pensar em tampas de vaso levantada, em toalha molhada em cima da cama ou coisa que o valha, aproveitem o ensejo e exclamem: isso deve ser excesso de homem.

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Mara Coradello

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7 Comentários on “Dois pequenos dramas barrocos”

  1. Thiago Setubal disse:

    Nossa, Mara Coradello é excesso de Clarice. Não, isso não é uma crítica, como poderia ser? Essa moça deveria ser capa da Reader´s Digest, como escreve bem. A cabeça e o coração a mil, belas construções de palavras, como que se ficasse cuspindo mel e diamantes no papel em branco.

  2. Mara Coradello disse:

    Thiago…não tem nada de Clarice neste texto. Aliás, qual texto dela você compararia com esse? E Reader´s Digest eu sei do que se trata, e sinceramente, não gosto. Mas a parte esses dois equívocos, que entendo como charmosas ironias, agradeço o elogio. Pena que a galera prefere e merece mesmo o MachoCut…risos.

    • Thiago Setubal disse:

      Mara, sentimentos pessoais que evocaram em mim a partir de uma ou outra coisa dela que li aqui e ali. Não tenho conhecimento de causa nem muito menos pretensão de citar e assinar embaixo qual texto compararia com o seu, ok? Acho que a percepção quanto a estilos ou outras traquitanas literárias realmente chegam a um nível pessoal de entendimento do contexto do mesmo modo que uma pessoa pode achar paralelos entre kerouac e mário prata (para não-catedráticos como eu, claro). Quanto a reader´s digest foi apenas uma brincadeira. Baixou a Vovó Mafalda aqui em mim. bjs em vc e no machocut.

  3. […] This post was mentioned on Twitter by Mara Coradello, Juliana Dadalto. Juliana Dadalto said: Deixamos os meninos sairem pra assumirmos delicadamente o poder no CUT, dessa vez com @maracoradello http://wp.me/prIkR-3Li #gogirls […]

  4. Lori disse:

    Tenho passado por seus textos Mara e leio com uma segurança na palavra. São palavras para mim (tenho muito por aprender ainda),daquilo que não se tem medo de enxergar.No desalinho do desamor e dos excessos (não só de homem),percebi um começo de verdade.Não sei se me faço entender,é simplesmente no bom uso que faz das palavras,calmamente dizer o que algumas mulheres tem medo de enxergar.Talvez porque temos receio do enfrentamento da tal contradição nessa contemporaneidade (ou modernidade)que dizem por aí,ainda tento entender..Fico pensando na condição humana – homens e mulheres – e no papel feminino nessa contradição.Ou pelo menos,nessa ocupação dedicada a mulher,há pouco indagada pelo tal #machocut.Entre o belo e delicado e a ferocidade e apelo,uma atitude que prefiro tentar achar é o caminho do meio,das “adjacências”. Da falta e do excesso, é uma crônica na medida do meio,daquelas mulheres que o tal #machocut nunca vai conseguir entender (pelo menos enquanto continuar com aqueles pensamentos grotescos e desvairados) e,provavelmente,nunca tocar uma mulher real assim,muito menos do jeito que o #machocut assiste no red tube.Se for possível,peço mais desses textos por aqui,discordando do que você disse sobre “modinha” comigo,lembrando-a que o arquivo existe.Não só no bloggler,mas nas memórias também.Isso vai ficar na minha por um bom tempo e sorte do CUT por contar c ele na linha do tempo. Beijos e até breve.

  5. Mara Coradello disse:

    Lori: o seu olhar melhora o meu.

  6. marianna rosa disse:

    sabe o texto certo na hora exata?
    ando vivendo a falta e questionando os excessos, tentando equilibrar as coisas.
    do texto nem preciso falar, só sinto falta de ler mais coisas tuas por aí mara.
    beijos!


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